Quinta da Fonte, Loures

«Pretos de um lado, ciganos do outro. Tudo junto não resulta. Ainda nos matamos todos.» Foi o que disse ao Correio da Manhã Paulo, de 28 anos, habitante da Quinta da Fonte. Na ‘Quinta’, diz o CM, 40% da população é de origem africana e 40% cigana, sendo 20% de «outra etnia».

O caldo étnico foi criado por altura da Expo, em que, para se contruírem acessos e espaços foi necessário realojar as 2500 pessoas cujas casas (a maioria clandestinas) obstruíam as obras. O presidente da Câmara de Loures reconheceu «que terá sido um erro despejá-las num mesmo bairro», mas que, atendendo à importância da ‘festa’, terá sido a solução mais rápida.

De facto, há palavras que explicam muito: etnias, despejar e agir sem pensar, conjugadas, são certamente explosivas. Associadas à pobreza, marginalidade e desemprego, chegam provavelmente para caracterizar a maioria dos bairros problemáticos dos arredores das grandes cidades.

Aliás, o Destak já tinha dado, em primeira mão, a notícia de um grave tiroteio na noite de quarta-feira na Falagueira (Amadora), com quatro feridos, e não é preciso ser vidente para antever que estas guerras serão recorrentes.

Ontem, 50 famílias ciganas que tinham fugido da Quinta da Fonte, e «rebentado» com as portas de uma outra urbanização, para ali se instalarem, diziam-se à espera de que as autoridades encontrassem uma solução para o seu caso. E as autoridades, prestimosas, assustadas e sob o fogo mediático, encontrarão, para depois voltarem a esquecer o assunto até à próxima batalha campal.

Sei que as soluções não são fáceis, mas receio que, por medo, acabemos por entrar neste jogo. Podemos admitir que pretos, encarnados, ou verdes se recusem a viver lado a lado? Se um ‘branco’ não quiser morar ao lado de um ‘preto’, o que é que lhe chamamos? E o que fazemos quando não gostamos do lugar onde vivemos?

Mudamo-nos, pagando do nosso bolso todos os custos. Não damos tiros, nem arrombamos portas, e bem podíamos esperar sentados que alguém nos desse uma casa alternativa. Não pode ser diferente só porque temos uma arma na mão e estamos dispostos a usá-la. >>>